O que é Educomunicação?
Um convite ao diálogo e à transformação docente
Quando falamos em educação dialógica e na formação de sujeitos omnilaterais, nos aproximamos da proposta da educomunicação. Trata-se de uma abordagem que integra educação e comunicação para fortalecer a cidadania, a liberdade de expressão e o acesso à informação. Em vez de reproduzir modelos tradicionais e unidirecionais — como a chamada educação bancária, criticada por Paulo Freire — a educomunicação propõe práticas interativas, dialógicas e mais democráticas.
A educomunicação nasce nos contextos de luta social na América Latina, como forma de resistência à censura, à repressão e ao autoritarismo. Desde seus primeiros passos, esteve ligada à produção de conteúdos alternativos e à formação crítica de estudantes, educadores e comunidades, permitindo que diferentes vozes fossem ouvidas e respeitadas. Seu foco não é apenas ensinar a consumir mídia, mas também a produzir, interpretar e transformar os discursos que nos cercam.
Mais do que uma metodologia, a educomunicação é uma práxis social. Ela compreende que os processos de ensino e aprendizagem não acontecem isolados, mas estão imersos em um ecossistema comunicativo — um ambiente onde circulam diferentes linguagens (verbal, visual, digital), saberes formais e informais, tecnologias e culturas. Isso significa que a comunicação não deve ser vista apenas como uma ferramenta ou recurso didático, mas como parte essencial do próprio ato educativo.
Ao reconhecer que os estudantes já vivem em um mundo profundamente conectado e repleto de estímulos comunicativos, a educomunicação nos convida a repensar o papel da escola e da docência. Ela nos propõe criar espaços de escuta, participação, criatividade e diálogo, fortalecendo o protagonismo estudantil e ampliando o alcance das práticas pedagógicas. Assim, a educomunicação se apresenta como uma aliada potente na transformação da educação técnica e profissional, contribuindo para práticas mais críticas, inclusivas e conectadas com a realidade.
Educom é..
...conjunto das ações inerentes ao planejamento e avaliação de processos, programas e produtos de comunicação implementados com intencionalidade educativa, destinado a criar e fortalecer ecossistemas comunicativos abertos, criativos, sob a perspectiva da gestão compartilhada e democrática dos recursos da informação”
(SOARES, 2008, p. 43-44)
O que são as Áreas de Intervenção da Educomunicação?
A Educomunicação, enquanto campo do conhecimento é composta por áreas de intervenção que organizam e orientam suas ações. Essas áreas funcionam como entradas possíveis para o universo educomunicativo, auxiliando no planejamento de práticas educativas baseadas no diálogo, na participação e na integração entre comunicação e educação.
A sistematização dessas áreas foi desenvolvida a partir dos estudos realizados pelo Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (NCE/USP). Com base em pesquisas iniciadas entre 1997 e 1999, o NCE ampliou o conceito de Educomunicação, indo além da leitura crítica dos meios e propondo novas formas de pensar a interface entre comunicação e educação.
Inicialmente, foram identificadas quatro áreas de intervenção, definidas a partir das práticas educomunicativas observadas:
1. Educação para a Comunicação – vinculada à leitura crítica dos meios, também conhecida como Media Education ou Educación en medios.
2. Mediação Tecnológica na Educação – voltada ao uso das tecnologias digitais de forma pedagógica.
3. Gestão da Comunicação nos Espaços Educativos – foco na organização dos fluxos comunicacionais dentro da escola.
4. Reflexão Epistemológica sobre o Agir Educomunicativo – trata da base teórica que sustenta a prática educomunicativa.
Com o avanço das pesquisas, outras três áreas foram incorporadas:
5. Expressão pelas Artes – sistematizada por Ângela Shaun, considera as artes como linguagens legítimas de expressão e comunicação.
6. Pedagogia da Comunicação – pesquisada por Luci Ferraz, valoriza práticas didáticas baseadas no diálogo e na participação.
7. Produção Midiática – relacionada à criação de produtos midiáticos nos meios de comunicação, incluindo rádio, TV, internet, entre outros.
Para Soares (2014, p. 47), essas áreas representam “portas de ingresso ao universo das práticas educomunicativas”. São elas que orientam o planejamento das ações e ajudam o educomunicador a reunir os recursos necessários para alcançar seus objetivos pedagógicos.
O que são Práticas Pedagógicas Educomunicativas (PPE)?
As Práticas Pedagógicas Educomunicativas (PPE) são compreendidas como ações educativas que utilizam as mídias e tecnologias de forma crítica, criativa e integrada ao contexto de vida dos sujeitos. Desenvolvidas pelo grupo EDUCOM FLORIPA (UDESC), as PPE têm como objetivo ampliar os ecossistemas comunicativos nos espaços educativos, reconhecendo a presença constante da mídia e da tecnologia no cotidiano.
Segundo Martini, Sartori e Garcez (2023), as PPE se organizam como práticas pautadas no uso midiático-tecnológico vivenciado pelas comunidades escolares e sociais, contribuindo para significar a aprendizagem de forma mais próxima da realidade dos estudantes.
Na contemporaneidade, o conhecimento circula por múltiplos canais e não apenas pela escola. Assim, as PPE visam dialogar com os diferentes ambientes formativos (mídia, redes sociais, comunidade, família etc.), atuando como uma ponte entre o saber escolar e as referências culturais dos alunos.
Nesse sentido, a mídia e as tecnologias não devem ser utilizadas apenas como ferramentas, mas como elementos que ajudam a formar sujeitos críticos e participativos. Como destaca Huergo (2010), a formação dos sujeitos ocorre em diferentes agências: a escola, os meios de comunicação, os espaços sociais e comunitários. Esses ambientes disputam sentidos, valores e formas de ver o mundo – e é papel da escola refletir criticamente sobre essas influências.
Dessa forma, as PPE favorecem a criação de práticas que envolvam os estudantes ativamente no processo educativo, integrando linguagem, cultura, tecnologias e comunicação. Como afirmam Sartori, Souza e Schöninger (2016), trata-se de uma ação mediadora que busca:
A proposta das PPE é sustentada por cinco princípios fundamentais, conforme sistematizados por Souza (2013):
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Considerar a centralidade da mídia e da tecnologia na vida contemporânea;
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Estabelecer ecossistemas comunicativos no espaço educativo;
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Ampliar as possibilidades comunicativas entre escola, crianças, famílias e comunidade;
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Utilizar pedagogicamente os recursos midiáticos e tecnológicos;
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Promover relações mais criativas e críticas com as mídias.
Esses princípios reforçam que a aprendizagem se fortalece quando é vivida de forma colaborativa, integrada ao cotidiano dos sujeitos e mediada por linguagens culturais. Por isso, as PPE propõe ambientes de aprendizagem abertos à criação, ao diálogo e à autoria, articulando práticas que contribuam com o desenvolvimento da criticidade e da autonomia.
Como destaca Sartori (2021), as PPE têm inspiração em uma abordagem sócio-histórica da aprendizagem, alinhando-se a Vygotsky ao entender que o conhecimento é construído na interação social, mediada pela linguagem, pelas tecnologias e pela cultura.
Em resumo, ao promover o uso das PPE no contexto educacional, espera-se fomentar práticas pedagógicas conectadas com o presente, que promovam espaços formativos, expressivos e democráticos, fortalecendo o papel da escola como espaço de participação, escuta e construção coletiva do conhecimento (Sartori, Souza e Schöninger, 2015).
“...potencializar ecossistemas comunicativos entre todos os sujeitos que participam do processo educativo, além de possibilitar a construção de novos espaços de aprendizagem por meio de uma relação mais ativa e criativa dos alunos com suas referências midiáticas.”
Saiba mais
Textos complementares
Links
Livro
SOARES, I. de O. Educomunicação: o conceito, o profissional, a aplicação: Contribuições para a Reforma do Ensino Médio.2 ed. São Paulo: Paulinas, 2014.